Método

Doze pontos de ineficiência, cinco meses, 258 mil entregas.

Em 2019 eu não estava olhando carteira de investimento. Estava olhando carga parada em armazém, com a diretoria cobrando resultado no meio de uma fusão. O que fiz ali virou minha monografia de MBA na USP/Esalq. É o mesmo raciocínio que uso hoje, quando alguém abre a própria vida financeira na minha frente.

  • 19% → 7%Ineficiência mensal, de março a agosto de 2019
  • 258 milEntregas analisadas na Grande São Paulo
  • 6.511 → 2.120Cargas paradas por mês, queda de 67%
  • 28 → 7Pessoas na área de controle depois do redesenho

Ineficiência mensal de entregas — janeiro a agosto de 2019

Cargas paradas sobre o total de tentativas de entrega, Grande São Paulo.

Ineficiência mensal de entregas, janeiro a agosto de 2019 Percentual de cargas paradas sobre o total de tentativas de entrega. Sobe de 15% em janeiro ao pico de 19% em março, quando o projeto foi aplicado, e cai até 7% em agosto. A meta da empresa era 10%. 0% 5% 10% 15% 20% Depois do projeto Jan/2019 — 15% de ineficiência · 4.961 cargas paradas em 32.830 tentativas Jan Fev/2019 — 17% de ineficiência · 5.136 cargas paradas em 30.424 tentativas Fev Mar/2019 — 19% de ineficiência · 6.511 cargas paradas em 33.777 tentativas Mar Abr/2019 — 13% de ineficiência · 4.767 cargas paradas em 35.549 tentativas Abr Mai/2019 — 11% de ineficiência · 3.838 cargas paradas em 35.167 tentativas Mai Jun/2019 — 12% de ineficiência · 3.443 cargas paradas em 28.743 tentativas Jun Jul/2019 — 8% de ineficiência · 2.610 cargas paradas em 32.072 tentativas Jul Ago/2019 — 7% de ineficiência · 2.120 cargas paradas em 30.261 tentativas Ago 19% 7% Meta da empresa: 10%
Acima da meta Abaixo da meta Meta da empresa (10%)
Ver os dados em tabela
MêsTentativas de entregaCargas paradasIneficiência
Janeiro32.8304.96115%
Fevereiro30.4245.13617%
Março33.7776.51119%
Abril35.5494.76713%
Maio35.1673.83811%
Junho28.7433.44312%
Julho32.0722.6108%
Agosto30.2612.1207%

Fonte: dados operacionais extraídos do sistema TMS da transportadora, compilados na monografia “Reestruturação da área de Controle de Operações para implantação de Projeto de Redução de Ineficiência através do Gerenciamento de Cargas Paradas”, MBA em Gestão de Projetos, USP/Esalq (Pecege), 2020.

O que estava acontecendo

  • A empresa tinha nascido da compra de quatro transportadoras brasileiras. Quatro culturas, quatro jeitos de trabalhar, um sistema só. Ninguém tinha parado para redesenhar o processo depois da fusão.
  • A meta interna de ineficiência era 10%. Em janeiro estávamos em 15%. Em março, 19%: quase o dobro da meta, e a curva ainda subindo.
  • Vinte e oito pessoas na área de controle, cada uma com escopo tão largo que a tratativa de carga parada — exatamente o que gerava a reclamação do cliente — virava a última tarefa do dia. Quando sobrava dia.
  • Controle, resolução e armazém trocavam e-mail em vez de conversar. Cada área virou uma ilha, e a resposta que salvaria uma entrega chegava depois do prazo dela.

O que eu fiz

Perguntei antes de decidir

Antes de mexer em organograma, apliquei um questionário de 26 perguntas com as onze pessoas que faziam o trabalho todo dia: o que trava, o que se atropela, onde a comunicação falha. A primeira reunião foi tensa e cheia de acusação cruzada. Foi também a mais útil: o mapa dos problemas saiu dali, não de uma consultoria.

Quebrei atividade grande em atividade pequena

Escopo largo demais não é sinal de equipe polivalente. É sinal de prioridade mal definida. Redesenhei as funções em blocos menores: um responsável só para agendamento, quatro para carga sadia, um analista dedicado a indicador. Cada pessoa passou a ter um recorte que cabia no dia de trabalho.

Criei um time que só cuidava do que dava errado

Seis pessoas saíram do controle e formaram uma célula dedicada exclusivamente a carga parada, sem nenhuma outra tarefa competindo por atenção. E essa célula foi fisicamente para perto do armazém: eles passaram a ver pela janela o caminhão voltando com a carga que não entrou. Distância entre quem decide e quem executa custa dinheiro. Ali dava para ver o custo no indicador.

Tirei o intermediário da conversa com o cliente

Antes, cada insucesso passava pelo comercial até chegar no remetente. Cortei o intermediário: a célula de resolução passou a falar direto com quem embarcou a carga. O comercial voltou a vender, a resolução ganhou velocidade, e a mercadoria parou de envelhecer no armazém esperando um e-mail ser respondido.

Medi todo dia, não todo mês

O indicador de nível de serviço passou a ser apurado e lido diariamente pela equipe e pela gerência, em vez de fechado no fim do mês, quando já não dá para corrigir nada. Foi isso que permitiu ver a curva virar em abril, três semanas depois de aplicar o projeto, e não em julho.

O que isso tem a ver com o seu dinheiro

A pergunta que eu fiz naquele armazém foi: onde o processo trava, quanto isso custa por mês, e qual é a única mudança que move o número. É a mesma pergunta que faço quando um empresário abre a estrutura dele na minha frente.

Uma empresa que exporta e carrega capital de giro caro em real tem um descasamento, não um problema de aplicação. Uma família com sete produtos em quatro instituições e nenhuma visão consolidada tem um problema de controle, não de rentabilidade. Nos dois casos, mexer no produto antes de entender o fluxo é como trocar de fornecedor sem olhar o processo: às vezes melhora, quase nunca resolve.

Foi por isso que vim para este lado. O rigor é o mesmo. O que mudou foi o objeto.

O que este case não é

Este é um estudo de operação logística, não de investimento. Ele não representa, não sugere e não projeta qualquer resultado financeiro em aplicações, e não existe transposição possível entre um indicador operacional e a rentabilidade de uma carteira. Está aqui por um motivo só: mostrar como eu trabalho um problema antes de opinar sobre ele. Investimentos envolvem risco, e rentabilidade passada não garante rentabilidade futura.

Traga o seu número, não a sua dúvida

Se você tem uma empresa ou um patrimônio com peças espalhadas, comece pelo que dá para medir: o que entra, o que sai e o que está parado. Em uma conversa de diagnóstico, sem custo, a gente monta esse mapa junto.